sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Edgar Allan Poe: Medo Clássico

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“- Decerto! Que vá para o inferno e que o diabo o carregue. Porém, conta-se que um certo sujeito rico e avarento colocou na cabeça que se aproveitaria de Albernethy, obtendo uma opinião médica sem precisar pagar a consulta. Forjando, com esse propósito, uma conversa casual quando estavam a sós, ele insinuou seu caso ao médico fingindo se tratar da doença de um indivíduo imaginário.

‘Suponhamos’, disse o avarento, ‘ que os sintomas deles sejam tais e tais. O que o doutor aconselha?’

‘O que aconselho?, respondeu Abernethy. ‘Bem, aconselho a procurar ajuda médica’

- Mas – disse o comissário, um tanto sem jeito – não estou me recusando a procurar ajuda e a pagar por isso. Eu realmente daria os cinquenta mil francos para quem me ajudasse na questão.

- Nesse caso, respondeu Dupin, abrindo uma gaveta e tirando um talão de cheques – você já pode me fazer um cheque no valor citado. Assim que o assinar, eu lhe entrego a carta.”

Edgar Allan Poe – A Carta Roubada

Retomando a leitura de contos, comecei no Halloween do ano passado a ler essa obra de compilação de contos do Edgar Allan Poe, lançada pela Darkside. A ideia era terminar em novembro mesmo. Bom...

O importante é que consegui conhecer a obra de Poe, já que eu tinha muita curiosidade, mas nunca realmente tinha me disposto a levantar e conhecer mais. Ainda bem que essa hora chegou.

O livro é dividido por temas e cada um deles tem contos relacionados: Espectro da Morte, Narradores Homicidas, Detetive Dupin, Mulheres Etéreas, Ímpeto Aventureiro e O Corvo.

São três contos em Espectro da Morte: O Poço e o Pêndulo, A queda da casa de Usher e O baile da Morte Vermelha.

O Poço e o Pêndulo

O livro já começa com um dos melhores contos do autor, também dos mais famosos.

A curta história mostra um protagonista sofrendo uma forte tortura psicológica. O interessante é que o Poe tem um estilo poético na prosa e o leitor se sente torturado também, porque apenas pela descrição do local e das sensações do personagem, temos a noção genuína do terror.

Há poucas informações históricas, apenas que se trata do período da Inquisição.

Entre várias torturas, o homem está em um local fechado e totalmente escuro, com um poço maroto disponível e não sabido, pronto para engoli-lo enquanto ele explorava o local.

Mas o mais tenso mesmo é um pêndulo, porque em um momento ele fica amarrado em uma cama enquanto vagarosamente (dias) um pêndulo ao teto com lâmina afiada vai fazendo seu movimento e cada vez mais se aproximando dele.

É o legítimo terror, com ratos, fundo de poço, claustrofobia, cegueira, enfim, sensações intensas de medo.

O Poço e o Pêndulo mostra que mesmo diante de situações tão adversas, alguma saída criativa pode acontecer.

A Queda da Casa de Usher

O conto é chato, longo e de linguagem monótona.

Nele, o narrador visita seu amigo Usher, em sua casa, que parece um castelo. Não se vêem há muitos anos e estranhou o convite, mas aceita ir.

Usher é cheio de manias e depressões, mas o narrador tenta animá-lo contando histórias, mesmo que detalhes da mansão o incomodem, sem saber explicar o motivo.

Ocorre que a irmã de Usher morre e este convence o narrador a deixa-la por uns dias no túmulo da família até ser enterrada. Porém, durante esse tempo, a casa tem barulhos estranhos e um clima esquisito do lado de fora.

Cada vez mais perturbado, Usher pede para que o autor lhe conte mais uma história. No meio dela, a irmã aparece e abre a porta, evidenciando que havia sido enterrada viva. Se joga sobre o irmão e eles parecem cair mortos. O autor sai correndo.

Esse conto é como um próprio pêndulo do conto anterior: varia entre loucura e paranormalidade de tempo em tempo.

Agora, apesar de ser chato e longo, a história realmente aterroriza, porque as descrições bem ao estilo gótico do autor são bem sombrias.

Ainda vale.

O Baile da Morte Vermelha

Neste conto, bem curtinho, há o personagem da morte, que é personificada numa bizarra figura humana, que depois se revela como um nada embaixo das vestes.

Bem, em O Baile da Morte Vermelha, a população de um local está sendo morta por uma peste conhecida como morte vermelha. A pessoa que tocasse alguém doente morreria em trinta minutos.

O príncipe, sabendo disso, foge para longe, em um castelo com sete salões e se isola, com sua nobreza.

Na história ele dá uma festa de máscaras e de tempo em tempo se faz o silêncio para observar se alguém teria sido vitimado, até que em dado momento uma figura mascarada invade o local e há uma perseguição por todos os salões.

Chegando no último salão, quando enfrenta o invasor, o príncipe cai morto e os nobres observam que sob as vestes do inimigo não havia nada, tratava-se da Morte Vermelha em si. Logo em seguida, todos morrem, um a um.

É bem interessante o autor utilizar esse tom sombrio e essas figuras góticas, que são tão famosas, para criticar aqueles que se acham melhores que os outros e abusam de privilégios. Ainda mais aqueles que quando devem proteger sua população, fogem para proteger a própria pele.

Excelente conto. Reli umas duas vezes, porque muita coisa se pega numa releitura.

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São três contos em Narradores Homicidas: O Gato Preto, O barril de amontilhado e O Coração delator

O Gato Preto

Esses contos são mais nebulosos e sombrios que os outros, sobretudo porque há uma forte violência nos narradores.

Em O Gato Preto, o narrador arranca o olho de seu gato, Plutão. No mesmo dia há um incêndio em sua casa e ele perde tudo. Ele percebe diversos sinais do gato nos escombros.

Há uma sensação de punição por ter torturado o animal.

Ocorre que em um novo apartamento, ele e sua esposa adquirem outro gato, mas quando nota um novo sinal, resolve mata-lo. Porém, sua esposa o interrompe, causando ódio e o personagem a mata com machadada.

Para se livrar do corpo, ele a empareda. Fica mais aliviado quando o gato desaparece.

O problema é que a Polícia chega para investigar e quando já estão indo embora, querendo se garantir, o protagonista bate na parede para mostrar que é forte. Há um ruído que chama a atenção.

Quando a parede é derrubada, está lá o corpo e, na cabeça da mulher, o gato desaparecido.

Esse conto mostra de forma macabra o castigo que há na tortura e violência contra o animal inocente. O gato é um animal cheio de misticismo por conta do seu jeito ensimesmado, então é o animal perfeito para no campo onírico punir o humano sádico.

O Barril de Amontillado

Neste curto conto, há um personagem protagonista sem nome que conta em detalhes uma armadilha que cometeu contra um homem chamado Fortunado.

Ele o atrai para seu castelo sob a promessa de mostrar o barril de bebida e o engana, até leva-lo a um local subterrâneo e enterra-lo sob as pedras.

É um narrador psicopata e conforme o texto passa, você vai entrando nesse clima em uma narração de enganação para a morte como se fosse algo muito simples.

O Coração Delator

Este conto mostra um homem narrando que havia invadido uma casa e matado um homem velho, que tinha um olho que o incomodava. Após parar de ouvir os batimentos de seu coração, o esquarteja e enterra sob as vigas.

Só um adendo sobre a recorrência do tema olhos e enterros nos contos de Poe, não somente os de narradores assassinos.

Quando a Polícia o interroga, aparentemente sem saber o que houve, o homem passa a ouvir novamente as batidas do coração do velho e em alguma sensação que pode ser terror ou culpa, acaba por confessar.

Essa história, apesar de curta, é bem tensa e os momentos finais são bem perturbadores.

...

São três contos sobre o Detetive Dupin: Os Assassinatos na rua Morgue, O mistério de Marie Rogêt e A Carta Roubada.

Os Assassinatos na rua Morgue

Os contos são publicados nesse livro em forma cronológica e possuem relação.

No primeiro, temos um protagonista que narra seu contato com o detetive Dupin, pessoa esquisita (tal qual o próprio narrador), mas muito inteligente e analítica.

Dupin é chamado pela polícia para ajudar na investigação sobre a morte de duas mulheres residentes na rua Morgue. O crime foi extremamente violento, inclusive com uma delas em uma chaminé.

Os jornais mostram suspeitos e fazem diversas investigações e conclusões sobre o ocorrido.

A técnica de Duplin é uma excelente dica para os dias de hoje: ele simplesmente lê as notícias de maneira crítica, sem simplesmente engolir tudo que publicam.

Para isso, mostrando a conclusão em diálogos com o narrador, Dupin revela que foi cometido o erro de confundir o “insólito com o incógnito”. Quer dizer que às vezes a solução não é uma novidade, mas uma análise fria do que já se conhece.

A solução do mistério é bem inteligente e Dupin utiliza o próprio jornal, em uma notícia que aparentemente não teria conexão, para verificar uma e entender o ocorrido. Com isso, evita-se que um inocente seja condenado.

Observando textos pela internet, muito se fala que a dupla é o primeiro caso de detetives da literatura, que deram espaço a Sherlock Holmes e Poirot.

O conto de fato é muito bom e inteligente, mas falta o brilhantismo dos autores das obras seguintes. Acredito que o forte da obra de Poe realmente esteja nos outros contos, sobretudo os mais sombrios e de terror.

O Mistério de Marie Rogêt

Sem dúvida é o mais fraco de todos os contos. Mas ele tem suas qualidades a meu ver.

Dupin investiga um famoso caso que paralisou Paris. A jovem Marie Rogêt foi encontrada morta boiando no Rio Sena. O problema é que a polícia tem muitas dificuldades em identificar o assassino.

O detetive utiliza novamente as notícias de jornal para chegar às próprias conclusões sobre o ocorrido e chega a uma diferente resposta de quem a teria matado.

A polícia primeiro suspeita do noivo de Rogêt, mas esse se mata. Após isso, desconfia-se que ela fora vítima de uma quadrilha, fato que é afastado por Dupin, que crê em um assassinato cometido por um amante marinheiro.

A resposta efetiva não é dada. Embora Dupin afirme saber a resolução do caso, Poe não mostra no conto se a hipótese realmente é confirmada.

Interessante notar que o conto é uma forma literária de Poe mostrar que resolveu um assassinato real ocorrido em New York no período. Sabe-se, inclusive, que ele enviou o texto a jornais revelando saber quem matou a jovem americana.

O conto apenas troca nomes e locais para a solução. Por isso, esse conto é um misto de narração, investigação e muita filosofia sobre interpretação de fatos e investigação forense.

Por isso, em alguns momentos é extremamente maçante, porque são parágrafos gigantes de teorias do autor sobre a investigação. Não é ruim, mas falta adicionar algo que atraia o leitor.

Talvez haja crítica de que o leitor atual não seja capaz de gostar dessa linguagem não mastigada de autores mais antigos. Verdade, por isso que nem questiono a qualidade, apenas digo que é chato.

De todo modo, o próximo conto foi bem melhor.

A Carta Roubada

Poe encerra os contos do detetive Dupin com o conto A Carta Roubada.

Com o sucesso de Dupin nos casos anteriores, o comissário monsieur G. o procura novamente, pedindo ajuda em um caso novo.

Uma carta fora roubada de uma pessoa importante do governo, pelo ministro D. e, com isso, ele passou a fazer chantagem, criando problemas políticos insustentáveis. Sendo assim, a recuperação dessa carta era necessária para acabar com o crime.

Nesse caso, achei muito mais interessante a postura de Dupin, que não só recuperou a carta, como deu uma bela lição de moral no comissário.

Quero destacar o trecho em que ele fala sobre o médico que não se deixou explorar, é o que está na epígrafe deste post.

Ah, como isso serviria para afastar alguns “amigos”, não é mesmo?

Fora isso, mesmo sendo o conto mais curto dos três, é justamente nele que Poe faz outra dura crítica à polícia e ainda faz de forma magistral.

Poe aconselha o comissário a retornar à residência do ministro e procurar novamente, mas, dessa vez, utilizando um pensamento do mais óbvio com relação a como ele pensaria. Ele sugere que não adianta padronizar técnicas investigativas se o ser humano tem diversos tipos de comportamentos, inteligência e interesses.

O comissário nega e diz que já havia sido feito no local o que poderia ser feito. Daí então, Dupin lança mão da analogia ao conto do Procusto, da mitologia grega.

Uma nota de rodapé explica o conto, que confesso não conhecia até então. Trata-se de um bandido que oferecia estadia para as pessoas na sua casa. Nela ele tinha uma cama de ferro do seu próprio tamanho.

Se a visita era pequena para a cama, ele a esticava. Se era muito grande, cortava seus membros. É uma referência à intolerância do homem, que quer exigir de todos que se enquadrem nos seus padrões.

Utilizando essas lições, Dupin consegue enganar o ministro e recupera a carta.

...

Fazendo um balanço dos três contos, verificamos a qualidade do texto do Poe e sua preocupação em ser claro com seus personagens em criticar os problemas do homem de sua época.

Claro que os romances policiais vindos depois acabaram por evoluir a técnica narrativa desse tipo de história, mas é muito interessante conhecer a gênese desse tipo de literatura que eu gosto tanto.

Com isso, chego na metade do livro e no momento me dedicarei a contos de outros autores, para muito em breve retornar e concluir os contos de Poe.

Mas certamente o Poço e o Pêndulo ficarão por muito tempo no meu pensamento.

FDL

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