quinta-feira, 16 de março de 2017

Tony & Susan – Austin Wright e Animais Noturnos

tony susan

“O homem chegou perto o bastante para que Tony sentisse o cheiro de cebola misturado a algo doce e licoroso, sua cara na mesma altura do rosto de Tony, e, embora fosse magro, Tony sabia que o homem podia destruí-lo. Deu um passo para trás, mas o homem diminuiu o espaço entre os dois. É a diferença de idade, disse Tony para si mesmo, sem acrescentar que desde os tempos de garoto nunca mais tinha se metido numa briga e mesmo naquela época jamais havia ganhado uma briga. Vivo num mundo diferente, Tony quase falou para si mesmo.”

Austin Wright

É um livro de tamanho médio, que me pareceu bem interessante tanto pela sinopse, quanto pelas indicações que recebi e também por ter uma comentada adaptação ao cinema ano passado.

Pois bem.

O começo realmente é excelente. Tanto que acabei lendo 120 páginas tudo de uma vez em uma noite aí. O problema vem depois.

Acontece que a história começa intensa e vem com vários problemas e uma grande tragédia. O que sobra depois é a essência da história, que não sei dizer se não é boa ou se não foi bem feita.

Vai a sinopse do Skoob mesmo:

Há vinte e cinco anos, Susan Morrow deixou Edward Sheffield, seu primeiro marido. Certo dia, instalada confortavelmente na casa em que mora, com os filhos e o segundo marido, inesperadamente ela recebe, pelo correio, um embrulho que contém o manuscrito do primeiro romance escrito por Edward. Ele lhe pede que leia seu livro: Susan sempre foi sua melhor crítica, justifica. Tony e Susan, de Austin Wright, publicado originalmente nos Estados Unidos em 1993, ganha nova edição, dezoito anos depois de seu lançamento, por se tratar, segundo seus editores, da “mais impressionante obra de arte da ficção americana desde Revolutionary Road, de Richard Yeats”, publicado no Brasil como Foi apenas um sonho.

Ao iniciar a leitura, Susan é arrastada para dentro da vida do personagem Tony Hastings, um professor de matemática que leva a família de carro para a casa de veraneio no Maine. Quando a vida comum e civilizada dos Hastings é desviada de seu curso de forma violenta e desastrosa, Susan se vê novamente às voltas com seu passado, obrigada a encarar a própria escuridão e a dar um nome para o medo que corrói seu futuro e que vai mudar sua vida.

O livro é dividido em duas partes que se alternam: a história de Susan e a história que ela lê, chamada Animais Noturnos, protagonizada por Tony.

A parte de Susan é simplesmente desinteressante. Ela até faz boas reflexões sobre seu passado e traça paralelos com sua vida e o que interpreta nas entrelinhas no livro de Edward. Mas tudo aquilo leva páginas e páginas de descrição, com um ritmo que nos perde.

Já Animais Noturnos fala basicamente sobre esse homem, Tony, que não confronta ninguém, está acostumado a fazer aquilo que lhe pedem. Ele é travado pela falta de coragem, pelo receio de cometer erros e pelo medo de não ser aceito.

A primeira parte de Animais Noturnos é perturbadora, porque retrata com frieza e de um jeito cru a violência humana, principalmente sob o aspecto psicológico. O domínio mental que Ray exerce em Tony é incômodo. Ao mesmo tempo, nos colocamos no lugar dele.

Depois disso a história se arrasta e depois de um bom tempo você entende para onde ela vai caminhar, mas leva muitas páginas e, novamente, muitas descrições inúteis para encher linguiça.

O final do livro chegou a me dar raiva. O diálogo final de Ray e Tony parece infantil de tão imbecil. Não dá. Além disso, me parecia óbvio o que aconteceria. E aconteceu.

No final, não foi a melhor experiência do mundo para mim, mas gosto varia e para outras pessoas pode funcionar como um bom livro.

Agora, vamos ao filme:

Animais Noturnos

animais noturnosFilme: Animais Noturnos (Nocturnal Animals)
Nota: 6,5
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Laura Linney, Michael Sheen e mais trocentas pessoas avulsas.
Ano: 2016
Direção: Tom Ford

Complicado esse filme, viu.

Se eu já não achei o livro lá essas coisas, o filme teria que aproveitar o que tem de bom em recursos para compensar. Mas achei que tentou demais e acabou cagando com tudo.

A cena inicial, com aquela mulher nua já foi desnecessária e eu não consegui enxergar de onde aquilo poderia ter utilidade. Me pareceu mesmo que foi apenas para chocar.

Há diversas alterações na história, principalmente na de Susan. Ficou claro que quem adaptou essa história para o cinema achou que essa parte sem graça e vazia no livro. De fato é, mas esse vácuo foi preenchido de forma muito superficial.

Esse filme tem cenários lindos, pessoas com cara até de futurísticas e me pareceu que tudo custou uma fortuna. Mas focaram demais na parte estética e o conteúdo mesmo, que mais me interessava, ficou desconexo.

O lado de Animais Noturnos em si, com o Tony, estava um pouco melhor, porque foi mais fiel. Eu achava que me sentiria mal com a cena inicial na estrada e de fato isso aconteceu. Toda aquela tensão, aquele sofrimento e maldade não podem ser vistos em um dia que você não esteja especialmente preparado para isso.

Se a cena final do livro, no embate entre Tony e Ray me irritou, nesse filme me deixou indignado. Que atuação foi aquela do Jake Gyllenhaal? Foi a pior dele que eu já vi, de longe. Era mecânico, com uns gritos esquisitos e não passavam nenhuma emoção, embora ele fizesse muitas caretas.

Eu respeito quem viu genialidade nesse filme, porque muitos viram. Mas para mim não funcionou. Aliás, o combo livro+filme não é o que mais me ganhou não.

Vamo que vamo.

FDL

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