sábado, 16 de setembro de 2017

Indefensável – O Goleiro Bruno e a História da Morte de Eliza Samudio – Paulo Carvalho, Leslie Leitão e Paula Sarapu

“O vestidinho, de botão e saia rodada, realçava a barriga de cinvo meses e lhe destacava os seios já cheios de leite. Seu semblante, no entanto, era o de uma menina assustada. Quem a conhecesse, diante daquela figura, se espantaria; ao contrário do visual com que habitualmente se apresentava, ali se via alguém desleixado, de cabelo desgrenhado. Tinha olheiras profundas, mas sequer recorrera à maquiagem – trunfo de qualquer mulher minimamente vaidosa. Do que se podia depreender apenas da fisionomia, era certo: Eliza tivera uma madrugada de terror.”

Paulo Carvalho, Leslie Leitão e Paula Sarapu

indefensávelPara a terceira parte dos crimes reais em setembro escolhi esse livro que estava aqui na estante há alguns anos já. Eu comprei na época do frenesi desse caso e achei que seria um livro oportunista, acabei perdendo o interesse. Peguei pela promoção mesmo. Somos vítimas do consumismo às vezes. Que seja com livros, pelo menos.

O negócio é que fiquei surpreso com esse livro. Ele tem um tom bem jornalístico. Depois verifiquei que os autores acompanharam o caso de perto, em várias publicações diferentes.

Indefensável conta o caso de Eliza Samudio, assassinada pelo amante Bruno, famoso goleiro brasileiro, que estava no auge de sua carreira, vislumbrando, inclusive uma vaga na seleção de futebol.

Esse caso foi excessivamente tratado pela mídia, tanto no começo, com o “desaparecimento” da “modelo”, quanto depois, nos julgamentos.

O livro é bem detalhista e achei a experiência válida não só pelo aspecto investigativo e narrativo da coisa toda. Os autores foram além e mostraram não só o ambiente do crime, mas também um panorama de como funcionam os bastidores dos grandes times de futebol, com atletas cheios de dinheiro, status, poder e blindados em seus mundinhos. Tudo isso sem preparo anterior, pois muitos vêm de famílias humildes. Logo, a sensação de onipotência e eternidade são muito perigosas na vida dessas pessoas.

Vários jogadores de futebol são mencionados na obra e fica evidente como o clima, pelo menos naquele time e naquela época, era tóxico e bem pouco próximo da filosofia esportiva.

Tenho que ressaltar também a importância de um caso como esse ter recebido atenção, mesmo que tenha sido apenas pela fama do criminoso. Isso porque a violência contra a mulher tem sido esquecida ou minimizada em atenção nos últimos tempos. Esse crime é, acima de tudo, um crime de violência contra a mulher.

No final, a leitura é rápida e o livro é apenas aparentemente curto. Até que tem bastante conteúdo.

Valeu a pena a leitura, que foi uma boa surpresa. Não tem nada de sensacional, mas me parece um relato honesto dos fatos.

Recomendo,

FDL

domingo, 10 de setembro de 2017

Casey Anthony – A Mãe Mais Odiada da América

Casey Anthony ID

Seguindo no setembro True Crime, resolvi ceder às facilidades da televisão on demand e assisti a esse documentário em três episódios do canal ID, da Discovery.

Essa história é realmente horrível. Casey Anthony tinha em torno de 20 anos quando foi acusada de matar a própria filha, Caylee, de apenas 02 anos, quando foi encontrada uma ossada perto da residência das duas.

Muito embora Casey sempre tenha alegado inocência, sua sequência de mentiras e seu comportamento bizarro sempre indicavam que ela não era verdadeira. Além disso, demonstrava pouca emoção com relação à perda da filha.

O mais bizarro é que o desaparecimento da criança só foi notificado à polícia 30 dias após ocorrido. Para piorar, antes de Caylee ser encontrada, Casey dizia que ela estava com uma babá que não existia.

Como depois do desaparecimento da criança Caylee esteve em festas, fez tatuagem celebrando a vida e não demonstrou o mínimo sofrimento, entendeu-se que ela matou a filha para poder viver uma vida livre das obrigações de mãe. Discutia-se se ela dopou a menina demais e ela acabou morrendo ou se ela de fato foi e matou a filha com toda a intenção.

De todo modo isso não importou, porque em um julgamento cheio de manipulações por parte de sua defesa pouco ética e com base em diversos boatos espalhados, Casey acabou absolvida, ainda que tenha passado alguns anos presa.

O documentário do ID tem depoimentos dos pais de Casey, que realmente cuidavam da neta. A vida dos dois foi destruída, sobretudo com as acusações feitas no julgamento. Amor incondicional de pai e mãe é testemunhado na vida real nesse caso. Sobretudo com relação à mãe, que mente em plenário, tentando proteger a filha.

O comportamento de Casey realmente é estranho, não que exista um protocolo de sentimentos nos casos de perda, mas ela parece absurdamente fria e controladora, sem esboçar o mínimo traço de sofrimento pela filha, mas pela possibilidade de ficar presa.

Ainda que seja função dos jurados e juízes observar os casos apenas fixados aos fatos e não nas pessoas, o telespectador não pode deixar de notar a absurda postura de Casey.

Se foi ela? Provavelmente, mas no sistema jurídico não é muito bem isso que importa na prática. A verdade é que a menina de dois anos foi brutalmente assassinada.

Esse caso é bem perturbador e quem puder, tiver interesse em true crime, deve assistir. São três episódios muito bem feitos.

Agora, acabei fixando no canal ID de novo. Vários documentários bons nesse canal.

Depois disso, acabei descobrindo que houve um filme sobre esse caso. É do Lifetime, especialista em filmes diretamente para a televisão. Deu trabalho de achar, tive que desenferrujar cérebro e ouvidos para prescindir das legendas, mas no final deu tudo certo, porém, antes não tivesse dado.

WATCH-Lifetimes-Prosecuting-Casey-Anthony-trailerFilme: O Julgamento de Casey Anthony (Prosecuting Casey Anthony)
Nota: 5
Elenco: Rob Lowe, Elizabeth Mitchell
Ano: 2013
Direção: Peter Werner

Apenas acho que não é só porque um filme é feito para a televisão, que ele deve ser tão preguiçoso e mal feito.

Os atores são bons, até gosto deles e, por isso, acabei insistindo em achar esse filme. Mas quando tudo é ruim, nem atores experientes conseguem salvar.

De fato a história contada é a do julgamento de Casey Anthony, com uma atriz, aliás, bem parecida com a verdadeira, diga-se de passagem. Porém, o viés é da promotoria. Os dois atores são promotores de justiça no caso, acusando a ré do crime de matar a própria filha.

Acontece que o enredo não flui de forma agradável, as emoções não convencem e há muito mambo jambo jurídico e pouca informação sobre o crime real, que interessou as pessoas.

Falta tudo, mas acima de qualquer coisa, um bom roteiro.

Não recomendo de jeito nenhum. Me pareceu apenas uma tentativa oportunista de aproveitar o embalo da repercussão do filme e ganhar uma grana.

Péssimo.

FDL

sábado, 9 de setembro de 2017

Casos de Família – Ilana Casoy

“Podval então questiona Renata se não lhe parece estranho que pai, mãe ou madrasta possa matar um filho ou enteado. Calmamente, a delegada responde que não, que para ela é comum; já havia trabalhado em um caso em que o pai pisoteou o filho até mata-lo, depois esquartejou e jogou o corpo em um lixão. Sua fala causa um murmúrio de espanto na plateia, mas a testemunha continua, dizendo que estranha mais um assalto em que não há roubo do que um pai que mata uma filha”
Ilana Casoy

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Esse livro da Ilana Casoy foi lançado pela Darkside há pouco tempo. Ele é a reunião de dois outros livros dela que eu já havia lido: A Prova é a Testemunha e O Quinto Mandamento, que tratam dos casos do assassinato de Isabela Nardoni e dos Richthofen, respectivamente.

Além de um acabamento melhor, com arte impecável, sendo obrigatória numa estante que tem true crime, essa edição, Casos de Família, tem várias adições.

A primeira é a reprodução das anotações à mão mesmo de Casoy, feitas no julgamento ou na reconstituição dos casos. São observações da autora, antes de edição e muita reflexão. É bem interessante notar as impressões da autora conforme os fatos eram expostos a ela.

Também há no livro documentos oficiais, que são facilmente encontrados pelo Google, mas compõem a obra, deixando o conhecimento mais completo. Há denúncias, debates em júri, sentenças e outras peças jurídicas.

Fora isso, trata-se de uma releitura. Gosto da habilidade de Ilana Casoy como escritora. Ela narra bem os fatos, independente de não ser da área do direito.

Vale a pena essa edição.

Concluída a parte 2 do setembro true crime.

FDL

domingo, 3 de setembro de 2017

Viagem das Loucas

snatchedFilme: Viagem das Loucas (Snatched)
Nota: 8
Elenco: Amy Schumer, Goldie Hawn, Wanda Sykes, Joan Cusack, Ike Barinholtz
Ano: 2017
Direção: Jonathan Levine

Gosto muito dessa atriz que quando vi o trailer achei que seria uma boa opção de diversão, porque foi muito engraçado o filme dela Descompensada.

Também deu certo.

É completamente sem noção, mas no bom sentido que uma comédia bem escrachada tem que ser.

É muito boa a sintonia da Amy Schumer com a Goldie Hawn, que estava sumida do cinema há um bom tempo. Os coadjuvantes, sobretudo a Wanda Sykes, também são bons. Gosto dela desde a época de The New Adventures of Old Christine.

Tem muitas cenas absurdas, nojentas e de gosto questionáveis. Mas todo mundo tem um dia de vontade de rir dessas coisas, não é? Vale muito.

O humor da Amy é bem particular e costuma dar certo. Não sei se vou lembrar desse filme por muito tempo, mas certamente no dia que eu vi não me senti decepcionado.

FDL

sábado, 2 de setembro de 2017

O Povo Contra O.J. Simpson – Jeffrey Toobin

“Seu nome nunca fora sequer citado no Los Angeles Times, mas, como suas ações demonstravam, já tinha desenvolvido certo interesse – e algum conhecimento prático – sobre o modus operandi da imprensa, como muitos de seus colegas. Mais que qualquer outra força policial do país, a polícia de Los Angeles nutria há décadas uma estranha e complexa relação simbiótica com os meios de comunicação”

Jeffrey Toobin

oj-simpson-capa-livro-3d-final-831x1024Esse foi o primeiro livro agora do mês de setembro em True Crime. Gosto desses desafios temáticos.

O Povo Contra O. J. Simpson já estava na prateleira há mais de um ano, porque foi lançado na mesma época da minissérie que já comentei. Só agora, depois de passar aquele intensivão eu resolvi ler. Não me arrependi.

O livro é grande, muito grande. Levei muito mais tempo do que esperava para ler. Além disso, ele é muito detalhado. Algumas coisas até cansam pela meticulosidade. Mas parece ser uma edição definitiva, feita por um jornalista que não só acompanhou o caso, como teve papel de muitas vezes influenciar acontecimentos.

Esse caso do O.J. Simpson é perturbador e mostra de forma clara a doença que a sociedade americana, principalmente na California, têm com a vida das celebridades. O interesse pelo íntimo alheio é doentio, chegando ao ponto de um país inteiro acompanhar um brutal crime como se fosse um reality show.

Quanto às impressões sobre o caso, são idênticas, porque a série de Ryan Murphy é inspirada neste livro e foi bem fiel.

O acabamento da editora está impecável, com capa dura, fotos e até um marcador de páginas em formato de bola de futebol americano.

Isso me empolgou para até o final do mês assistir ao documentário vencedor do Oscar, O.J. Made in America e também a série em documentário do Discovery ID. Depois volto para falar deles.

Recomendo.

FDL

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Confissões – Kanae Minato

confissões kanae

“Você quer saber o que eles perceberam? Acho que descobriram a sensação de serem tratados com respeito. Ouvimos tanta gente falar de famílias abusivas que corremos o risco de achar que todas as crianças são maltratadas em casa. Mas a verdade é que a maioria das crianças hoje em dia é paparicada e mimada. Os pais imploram e só faltam ajoelhar para que os filhos estudem, comam ou o que for. Talvez por isso os filhos demonstrem tão pouco respeito pelos pais e falem com os adultos no mesmo tom que usam para conversar com os colegas. E muitos professores entram no jogo – acham uma honra ganhar um apelido ou serem tratados de maneira informal pelos alunos na sala de aula”

Kanae Minato

Segue a sinopse desse livro, que já daí me fez querer ler na hora:

“O mundo da professora Yūko Moriguchi girava em torno da pequena Manami, uma garotinha de 4 anos apaixonada por coelhinhos. Agora, após um terrível acontecimento que tirou a vida de sua filha, Moriguchi decide pedir demissão. Antes, porém, ela tem uma última lição para seus pupilos. A professora revela que sua filha não foi vítima de um acidente, como se pensava: dois alunos são os culpados. Sua aula derradeira irá desencadear uma trama diabólica de vingança.

Narrado em vozes alternadas e com reviravoltas inesperadas, Confissões explora os limites da punição, misturando suspense, drama, desespero e violência de forma honesta e brutal, culminando num confronto angustiante entre professora e aluno que irá colocar os ocupantes de uma escola inteira em perigo.

Com uma escrita direta, elegante e assustadora, Kanae Minato mostra por que é considerada a rainha dos thrillers no Japão”.

Confissões foi um livro que li em um dia só. Tudo bem que são apenas 174 páginas, mas o ritmo da narração é tão frenético e a história tão intensa, que me escravizou na hora que comecei. Fazia pequenas paradas apenas para refletir sobre aquilo que estava lendo, porque esse livro me tirou da realidade completamente.

Dois livros paralelos correm em um só. O primeiro deles é um suspense envolvendo adolescentes psicopatas, ou com qualquer transtorno antissocial da moda, submetidos à vingança de uma professora ferida com a pior violência que uma mulher pode sofrer: contra seus filhos. Mas está latente uma discussão sobre a criação das crianças no Japão e, observadas as adaptações culturais, no mundo também: professores, pais e colegas não estão se relacionando de forma harmônica e a distância de comunicação está isolando as pessoas, prejudicando quem está em formação. Há a questão da superproteção também.

O livro é dividido em capítulos, que são narrativas em formato de confissão de cada personagem. Além disso, o tempo passa entre uma confissão e outra, mostrando diferentes pontos de vista sobre o acontecimento principal, as diversas motivações e, claro, as consequências. Gostei desse modo de narrar a história, mostra as nuances.

O final tem reviravoltas rocambolescas e forçadas, mas não deixa de cumprir seu papel. Gostei muito.

Quero destacar um capítulo em que são encontradas as cartas da mãe de um personagem, Naoki. Falei sobre o assunto recentemente quando li o livro e vi o filme “O Jantar”. A superproteção de alguns pais chega a cegá-los. Os filhos fazem o diabo, mas a culpa é sempre dos outros, porque como vêem os filhos como uma extensão de si mesmos, assumiriam uma culpa própria também.

A situação com os jovens no Japão é polêmica, já tinha ouvido falar nisso. O livro até fala de um termo que eu não conhecia: hikikomoris. É um problema que ocorre no país, onde diversos jovens estão entrando em forte depressão e não saem de casa. Não estudam, não trabalham, ficam trancados no quarto. Uma das explicações para isso é o grau de exigência de perfeição e a baixa tolerância às falhas que o jovem sente na sociedade.

O livro trata disso, desse clima de competição e comparação que há nas escolas. Isso é bem preocupante.

Quando terminei de ler fui pesquisar e descobri que houve um filme, que deveria assistir para completar o combo.

confissões filmeFilme: Confissões (Kokuhaku)
Nota: 8
Elenco: não conheço muito de cinema japonês
Ano: 2010
Direção: Tetsuya Nakashima

O filme segue a história de forma bem parecida com o livro, com poucas mudanças.

Japoneses possuem uma cultura muito distante da nossa, então estranhamos algumas situações. A primeira delas é que eles não poupam a violência física, nem mesmo com crianças. As cenas são excessivamente fortes de agressões, com sangue espirrando e tudo.

Além disso, o final do filme teve uma tendência pelo exagero no drama, com gritos, urros, choros com berros, desespero. É bem esse o estilo.

No geral, é um bom filme também, que aproveitou a chance para colocar trilha sonora que auxiliou na experiência e não pecou com mudanças desnecessárias, enrolações ou bobagens.

O livro é uma experiência melhor, mas o filme cumpre seu papel.

Recomendo tudo.

FDL

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Clarice Lispector – Todos os Contos. Parte 01: Primeiras Histórias

Clarice Lispector – Todos os Contos 1Estava pensando em fazer algo diferente com a minha rotina de leituras e esse livro foi a opção mais adequada. Estava com saudades de ler algo de Clarice e não tenho o hábito de ler contos. Por isso, enquanto tiver tempo, vou ler esse livro bem aos poucos. Como ele é uma junção de contos que já eram agrupados em diferentes livros, fica fácil fazer uma divisão.

O trabalho de contos de Clarice é tão respeitado quanto o de romances e eu sempre tive vontade de conhecer, porque até hoje eu só li os romances A Hora da Estrela e Água Viva. Já os li há muitos anos e mesmo assim muito me marcam e me impressiono com quantas coisas ainda ficaram na minha memória. Isso é identificação com o que se lê. Quanto mais descartável a leitura, menos ela dura.

A primeira parte foi uma reunião de contos escritos na juventude da autora. O título ficou Primeiras Histórias, com 10 contos.

O Triunfo

O primeiro conto é bem curto e tem a protagonista Luísa, que acaba de ser abandonada pelo companheiro e está no momento de choque em se adaptar à nova realidade, enquanto digere o que tem acontecido.

As lembranças de Luísa claramente mostram a vivência de um relacionamento abusivo, no qual não era respeitada e o curto conto mostra uma conclusão final dela: ele voltaria para casa.

Fica a sensação de não sabermos se ela realmente conclui isso, a despeito de tudo indicar o contrário, ou é apenas uma forma que encontrou de pensar para evitar o sofrimento.

Posso interpretar também que ela quando se vê sozinha e percebe as falhas do marido, entende que ela é superior a ele, não o contrário, como tanto pensava. Logo, ele que precisava dela, não o oposto.

A intensidade da escrita e o significado em cada linha já mostram que ler Clarice é para ser devagar mesmo, porque há um simbolismo em tudo que ela escreve.

Só agora percebo como sentia falta dessa leitura.

Obsessão

Esse já é um conto mais longo e denso.

A narradora é uma mulher infeliz na apatia de seu casamento com Jaime e sua vida que apenas seguia o que tinha que seguir, sem questionamentos.

Ocorre o momento de ruptura quando ela conhece Daniel, que é justamente o oposto daquilo que ela conhecia, pois é um homem que questiona tudo, enxerga na vida um grande sofrimento e ultrapassa a vida básica em busca de algo que transcende.

Isso faz com que ela se apaixone por Daniel e também sucumba, porque ele vê nela essa insignificância, a chamando de burra e inocente o tempo todo.

A despeito de ser agredida, ela se apaixona cada vez mais por esse homem que a faz questionar a sua vida anterior infeliz, ainda que na nova não encontre essa felicidade. Parece que ela quer sentir, algo que não fazia isso, ainda que fossem sensações de dor.

Nesse momento, Daniel encarna um tipo de professor e diz que irá educa-la sobre esses conhecimentos de consciência sobre a existência. Ela larga o marido e Daniel diz seu nome, Cristina.

Fico com a sensação que somente sabemos o nome dela nesse momento porque antes ela era anônima, não existia, era apenas um corpo seguindo a vida.

O final do conto mostra que conforme ela descobre a existência, descobre também que Daniel não é um Deus, possui fraquezas como qualquer um.

Assim, Cristina entende que conhecimento é solidão, voltando para seu marido.

Esse conto é complexo e ler Clarice sempre dá a impressão de que algo não foi percebido ou entendido. Mas algo tão profundo só pode atingir cada leitor de uma forma, não há outro jeito.

Apesar de se alongar muito, vejo nesse conto alguns recursos que já conhecia na escrita dela: a busca do protagonista por um sentido na existência, a saída do marasmo ao se chocar com a consciência, a revelação tardia do nome da protagonista quando ela sai da apatia e o final aberto.

Excelente conto.

O delírio

Esse já é um conto mais difícil. Somente relendo para compreender algo. Ou achar que compreendeu. É bem curtinho.

A pouca narrativa mostra um homem doente, em meio a delírios causados pela enfermidade. Ele é escritor.

Por meio de diversos simbolismos, como a luz que entra pela janela, a terra murcha e a renovação das espécies, percebe-se que cada vez mais o escritor está ligado a uma existência metafísica, perdendo o contato com a realidade.

Isso se mostra ao não compreender algumas situações à sua volta, fazendo com que sua enfermeira entenda que o fim dele está próximo.

O mais interessante é que ele somente sente paz com seu delírio quando pega papel e lápis e o coloca em letras. É temática da Clarice essa união entre o escritor e o sentido que ele mesmo se dá somente ao escrever.

Quantos simbolismos posso ter perdido? Muitos, mas somente relendo várias vezes para compreender ou viajar cada vez mais. Será que para compreender esse conto o próprio delírio deve ser nosso?

Essa leitura de contos abre demais a cabeça.

Eu e Jimmy

Conto de pouquíssimas páginas, mas bem interessante. Um dos melhores até agora.

Vejo um lado irônico na autora, que traz uma escrita com clara postura feminista.

A protagonista é uma estudante de direito e começa a se relacionar com Jimmy. Mas ela segue o que sua mãe fez, tendo pensamentos próprios, mas os suprimindo para seguir uma doutrinação masculina.

Jimmy ensina-lhe sobre seu pensamento natural, ou seja, se duas pessoas se gostarem, devem se amar, tal qual animais, e qualquer outra coisa é bobagem.

Assim a protagonista segue, até conhecer seu examinador no curso, a quem chama de D., que lhe ensina novas teorias e pensamentos novos. Isso faz com que ela deixe de admirar Jimmy, que era muito mais raso.

Aí vem a ironia, para terminar com Jimmy ela aplica a ele a própria teoria. Mas ele não gosta nem um pouco e a ofende, fazendo com que ela fique confusa.

Nessa hora vem o ponto alto: ela consulta sua avó sobre o conflito, obtendo a sábia resposta de que homens criam teorias para eles, mas para as mulheres são diferentes.

Assim, a estudante compreende que se é assim, de fato somos animais. Porém Jimmy apesar de falar, não compreende isso.

É interessante a passagem curta que mostra o descobrir de uma mulher sobre questões que a inferiorizam em um tempo que ela está começando a ter acesso ao conhecimento.

História Interrompida

O conto mostra mais uma protagonista sem nome. Esta tem um relacionamento com W e se sente inquieta em tentar compreendê-lo. Ele é uma pessoa triste, que a deixa confusa. O problema é que quanto mais tenta fazê-lo superar esse estado, pior se sente, pois ele acha que ela não tem capacidade de entender.

Deste modo, ela conclui que ou ela o destrói, ou ele a destrói. Em uma espécie de vingança, ela decide que irá pedi-lo em casamento, talvez como forma de “ganhar” a briga, fazendo com que ele fique feliz.

Para isso, planeja como pedir, como se vestir, para que tudo seja perfeito. Se perde em expectativas. Até se sente culpada pela felicidade.

Em sua visão até infantil, ela ignora os verdadeiros motivos da tristeza dele. Ela o quer contente para que ela fique contente também.

Todavia, vem a ruptura: no dia em que pediria W em casamento descobre que ele se matou.

Após uma passagem ela se questiona, porque no futuro se casou e teve filhos, mas continua sem compreender o sentido de W e de seu sofrimento por ele. As explicações de Deus não a satisfazem.

Interessante compreender a passagem de Ló que ela cita: aquela que olha para trás e se transforma em sal. Ela tenta não fazer isso, mas não consegue, porque não entende o sentido do suicídio.

É um conto mais complexo e confuso, porque confesso não entender como a autora se vingaria casando. Mas ainda assim mostra a relação de expectativa e frustração como forma de evolução para o ser humano.

A Fuga

Esse conto tem umas 05 páginas, mas é um tapa na cara.

Temos uma protagonista mulher novamente, sem nome novamente e nesse caso certamente ela não tem nome porque representa todas as mulheres.

Ela é casada há 12 anos e tem uma grande descoberta, uma revelação, um rompante de coragem. Resolve fugir de casa. Nos primeiros parágrafos ela saboreia as primeiras horas de liberdade, na chuva.

Após isso, aparece uma alegoria, da pessoa que não é atingida pela gravidade, vive caindo, mas nunca chega a lugar algum. Ela se sente afundando no mar, sem nunca chegar ao fundo.

Ela de repente sente de novo a mesma sensação de sufocamento que sentia no casamento. Começa a pensar que talvez o dinheiro que tinha não desse para o navio, que tomou chuva e estava com frio. Parecem desculpas para desistir da fuga, ou a sensação de que uma mulher casada naquela época não tinha a opção de seguir sua própria vida.

Ao final, volta para casa e o marido nem nota que ela demorou, já lhe trazendo compromissos caseiros. Ele dorme e ela chora no seu canto.

Percebemos que o título da fuga não é do marido, mas dela mesma, porque é anulada, não tem como ter a liberdade que sonha nesse mundo.

Clarice reflete muito sobre o papel da mulher, sobretudo na instituição família. Ela é apenas um papel social, não tem individualidade.

Talvez um dos meus contos preferidos até agora.

Trecho

Clarice apresenta Flora, uma mulher que espera seu namorado/amante/rolo, Cristiano, em um restaurante.

Ela se sente insegura por estar sozinha e acha que todos a julgam por isso, ou, pior, não a notam, como se não existisse.

Ela o espera ansiosamente, mesmo com o atraso, porque ele lhe prometeu que seria um grande dia.

O conto vai mostrando uma linha de pensamentos de Flora, que tem uma filha, a quem chama de Nenê. Flora também parece ser jovem e vive sendo avisada que seu maior medo pode ser realidade: será abandonada com uma filha.

Em um momento, quando já crê que Cristiano não virá, Flora se olha no espelho e não se reconhece. Sente que sem ele, ela não existe. Mais uma vez Clarice mostra como as mulheres da época se sentiam incompletas sem um homem ao lado.

De repente, Cristiano chega. Ela sente raiva por ele demorar tanto, a fazer não existir naquela restaurante por tanto tempo. Ele dá uma desculpa esfarrapada e começa a lhe tratar com paternalismo.

Ela esquece. Fica feliz, porque agora existe.

Cartas a Hermengardo

Este conto me pareceu ser o mais difícil de compreender o sentido, por conta da linguagem da autora e das metáforas e referências que para mim nem sempre ficaram tão claras.

São 05 cartas escritas por Idalina a José, a quem prefere chamar de Hermengardo. Ela não pretende enviá-las e não o conhece pessoalmente. Ela apenas o vê da sacada de seu prédio fumando na sacada dele.

A impressão é a de que como ela sabe que a carta não será lida por ele, ela pode expressar todas as angústias e reflexões que o convívio social a impedem de fazer.

Na primeira carta, Idalina sente-se culpada, por ter tudo e não ser feliz, estar insatisfeita. Diz parece pouco der pão e cama. Obviamente se nota que lhe falta companhia.

Idalina tem emprego, cita chegar em casa de uma repartição e também um professor de direito público. Mas é sozinha e até cita o termo “spleen”, muito utilizado na literatura, que nada mais é o sofrimento pelo vazio existencial.

Nas cartas seguintes, Idalina mostra suas reflexões antes ocultas. Como uma espécie de resignação, afirma que amar é sofrer. Lamenta essa constatação, mas faz um estranho paralelo entre pensar em ouvir uma música e efetivamente ouvi-la. Segundo ela, assim que ouve a música, ela se acaba e o significado que tinha em seu pensamento também se vai.

Por isso, Idalina diz que só ama quem não coloca o amor em prática, porque é como coloca-lo para fora de si e a experiência destrói o amor.

Ela ainda faz reflexões sobre paixão e deixa Hermengardo com um conselho sobre amar, mesmo sabendo que ele não lerá suas cartas.

Conto muito difícil e tenho certeza que precisarei reler no futuro para quem sabe retirar algo mais dele.

Gertrudes Pede Um Conselho

Clarice mostra nesse conto sua grande habilidade com a escrita, sobretudo nas questões dos pensamentos e sentimentos de seus personagens. Esse conto, como tantos outros, é quase inteiro escrito em discurso indireto livre, com poucos diálogos explícitos.

Essa característica deixa um ar soberano ao narrador na interpretação do personagem, mas com uma linguagem dessas sensações.

Gertrudes, Tuda, é uma jovem de 17 anos, muito inquieta, que escreve diversas cartas para a “doutora”. Não fica claro qual a atuação dela, ficando no ar a suspeita de que seja uma advogada.

Talvez pela insistência das cartas com um pedido de emprego, a doutora chama Tuda para uma entrevista.

No caminho, Tuda reflete sobre sua perturbação, as ideias de suicídio e, seguindo o tema do conto anterior, a sensação de culpa que sentia por sentir-se incompleta, já que tinha tudo. Em um momento diz que não suporta a felicidade que tem, mesmo sem saber que felicidade é essa.

Claro que Tuda cria expectativas de como seria essa mulher que idealizava e teria como mentora, direcionando lhe pelo caminho que precisava seguir e não sabia como era.

O problema é que quando chega à entrevista, Tuda se decepciona, pois a doutora não é como imaginava e demonstra vários sinais de que também é uma humana com conflitos e incertezas.

Tuda, com isso, tem vontade de fugir, pois constata que a doutora é igual a todo mundo, incapaz de compreende-la.

Após conversarem e perceber o desinteresse da doutora, quando está indo embora, ouve da mulher para que vivesse a vida, deixasse o sentido dela aparecer naturalmente, como acontece com todos. Diz-lhe também que ela é uma garota sensível, por isso, sente tanto mais infelicidade quanto felicidade que os outros, mas não deveria antecipar, porque o sentido da vida aconteceria.

No entanto, a falta de sinceridade da mentora é percebida pela suposta pupila, que se sente agora superior à doutora, que desistiu do sentido da vida, mas ela não, era corajosa.

Tuda ainda sente uma fagulha de admiração pela doutora quando essa pede para que ela retorne com uns 20 anos para trabalhar com ela, quando for mais experiente.

A epifania de Tuda chega no caminho de casa, quando lembra da mão mole que a doutora estendeu-lhe na despedida: foi indesejada. Mas mesmo assim está mudada. Percebe que não precisa de sua mãe lhe dizendo o que fazer, nem da doutora para ser mentora. Era capaz de tomar suas decisões sozinha.

Arrebata da seguinte forma:

“Lembrou-se subitamente: a doutora... Não... Não. Nem aos vinte anos. Aos vinte anos seria uma mulher caminhando sobre a planície desconhecida... Uma mulher! O poder oculto desta palavra. Porque afinal, pensou, ela... ela existia! Acompanhou o pensamento a sensação de que tinha um corpo seu, o corpo que o homem olhara, uma alma sua, a alma que a doutora tocara. Apertou os lábios com firmeza, cheia de súbita violência:

- Eu lá preciso de doutora! Lá preciso de ninguém!

Continuou a andar, apressada, palpitante, feroz de alegria.”

Mais dois Bêbados

O conto final de Primeiras Histórias é bem diferente dos outros. Mas ainda segue como assunto o conflito interno sobre o significado da vida.

Um homem bêbado, noivo, cansado da falta de compreensão de sua noiva, Ema, perambula pela rua em busca de outro bêbado para começar a conversar.

Ele encontra outro homem, que deixou esposa e filho doente em casa para beber. Mas o outro manguaceiro não parece ter interesse nessas reflexões que o primeiro faz e que parece beber apenas para atingir esse grau de consciência.

Irritado, o primeiro homem começa a contar uma história bizarra e perturbadora a respeito da esposa e do filho do segundo, de modo a faze-lo ouvir, demonstrar emoções e e sentimentos.

Mesmo assim, parece que não há resultado, até que o outro bêbado diz que vai falar uma coisa e... o conto acaba.

É irônico, pois no meu entender foi a autora dizendo que nunca sabemos que o outro pensa quando tentamos enfiar pensamentos na cabeça dos outros.

...

Assim termina esse primeiro livro de contos da Clarice Lispector. O próximo é Laços de Família, um dos mais famosos da autora. Em breve faço comentários sobre ele.

FDL