quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Confissões – Kanae Minato

confissões kanae

“Você quer saber o que eles perceberam? Acho que descobriram a sensação de serem tratados com respeito. Ouvimos tanta gente falar de famílias abusivas que corremos o risco de achar que todas as crianças são maltratadas em casa. Mas a verdade é que a maioria das crianças hoje em dia é paparicada e mimada. Os pais imploram e só faltam ajoelhar para que os filhos estudem, comam ou o que for. Talvez por isso os filhos demonstrem tão pouco respeito pelos pais e falem com os adultos no mesmo tom que usam para conversar com os colegas. E muitos professores entram no jogo – acham uma honra ganhar um apelido ou serem tratados de maneira informal pelos alunos na sala de aula”

Kanae Minato

Segue a sinopse desse livro, que já daí me fez querer ler na hora:

“O mundo da professora Yūko Moriguchi girava em torno da pequena Manami, uma garotinha de 4 anos apaixonada por coelhinhos. Agora, após um terrível acontecimento que tirou a vida de sua filha, Moriguchi decide pedir demissão. Antes, porém, ela tem uma última lição para seus pupilos. A professora revela que sua filha não foi vítima de um acidente, como se pensava: dois alunos são os culpados. Sua aula derradeira irá desencadear uma trama diabólica de vingança.

Narrado em vozes alternadas e com reviravoltas inesperadas, Confissões explora os limites da punição, misturando suspense, drama, desespero e violência de forma honesta e brutal, culminando num confronto angustiante entre professora e aluno que irá colocar os ocupantes de uma escola inteira em perigo.

Com uma escrita direta, elegante e assustadora, Kanae Minato mostra por que é considerada a rainha dos thrillers no Japão”.

Confissões foi um livro que li em um dia só. Tudo bem que são apenas 174 páginas, mas o ritmo da narração é tão frenético e a história tão intensa, que me escravizou na hora que comecei. Fazia pequenas paradas apenas para refletir sobre aquilo que estava lendo, porque esse livro me tirou da realidade completamente.

Dois livros paralelos correm em um só. O primeiro deles é um suspense envolvendo adolescentes psicopatas, ou com qualquer transtorno antissocial da moda, submetidos à vingança de uma professora ferida com a pior violência que uma mulher pode sofrer: contra seus filhos. Mas está latente uma discussão sobre a criação das crianças no Japão e, observadas as adaptações culturais, no mundo também: professores, pais e colegas não estão se relacionando de forma harmônica e a distância de comunicação está isolando as pessoas, prejudicando quem está em formação. Há a questão da superproteção também.

O livro é dividido em capítulos, que são narrativas em formato de confissão de cada personagem. Além disso, o tempo passa entre uma confissão e outra, mostrando diferentes pontos de vista sobre o acontecimento principal, as diversas motivações e, claro, as consequências. Gostei desse modo de narrar a história, mostra as nuances.

O final tem reviravoltas rocambolescas e forçadas, mas não deixa de cumprir seu papel. Gostei muito.

Quero destacar um capítulo em que são encontradas as cartas da mãe de um personagem, Naoki. Falei sobre o assunto recentemente quando li o livro e vi o filme “O Jantar”. A superproteção de alguns pais chega a cegá-los. Os filhos fazem o diabo, mas a culpa é sempre dos outros, porque como vêem os filhos como uma extensão de si mesmos, assumiriam uma culpa própria também.

A situação com os jovens no Japão é polêmica, já tinha ouvido falar nisso. O livro até fala de um termo que eu não conhecia: hikikomoris. É um problema que ocorre no país, onde diversos jovens estão entrando em forte depressão e não saem de casa. Não estudam, não trabalham, ficam trancados no quarto. Uma das explicações para isso é o grau de exigência de perfeição e a baixa tolerância às falhas que o jovem sente na sociedade.

O livro trata disso, desse clima de competição e comparação que há nas escolas. Isso é bem preocupante.

Quando terminei de ler fui pesquisar e descobri que houve um filme, que deveria assistir para completar o combo.

confissões filmeFilme: Confissões (Kokuhaku)
Nota: 8
Elenco: não conheço muito de cinema japonês
Ano: 2010
Direção: Tetsuya Nakashima

O filme segue a história de forma bem parecida com o livro, com poucas mudanças.

Japoneses possuem uma cultura muito distante da nossa, então estranhamos algumas situações. A primeira delas é que eles não poupam a violência física, nem mesmo com crianças. As cenas são excessivamente fortes de agressões, com sangue espirrando e tudo.

Além disso, o final do filme teve uma tendência pelo exagero no drama, com gritos, urros, choros com berros, desespero. É bem esse o estilo.

No geral, é um bom filme também, que aproveitou a chance para colocar trilha sonora que auxiliou na experiência e não pecou com mudanças desnecessárias, enrolações ou bobagens.

O livro é uma experiência melhor, mas o filme cumpre seu papel.

Recomendo tudo.

FDL

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Clarice Lispector – Todos os Contos. Parte 01: Primeiras Histórias

Clarice Lispector – Todos os Contos 1Estava pensando em fazer algo diferente com a minha rotina de leituras e esse livro foi a opção mais adequada. Estava com saudades de ler algo de Clarice e não tenho o hábito de ler contos. Por isso, enquanto tiver tempo, vou ler esse livro bem aos poucos. Como ele é uma junção de contos que já eram agrupados em diferentes livros, fica fácil fazer uma divisão.

O trabalho de contos de Clarice é tão respeitado quanto o de romances e eu sempre tive vontade de conhecer, porque até hoje eu só li os romances A Hora da Estrela e Água Viva. Já os li há muitos anos e mesmo assim muito me marcam e me impressiono com quantas coisas ainda ficaram na minha memória. Isso é identificação com o que se lê. Quanto mais descartável a leitura, menos ela dura.

A primeira parte foi uma reunião de contos escritos na juventude da autora. O título ficou Primeiras Histórias, com 10 contos.

O Triunfo

O primeiro conto é bem curto e tem a protagonista Luísa, que acaba de ser abandonada pelo companheiro e está no momento de choque em se adaptar à nova realidade, enquanto digere o que tem acontecido.

As lembranças de Luísa claramente mostram a vivência de um relacionamento abusivo, no qual não era respeitada e o curto conto mostra uma conclusão final dela: ele voltaria para casa.

Fica a sensação de não sabermos se ela realmente conclui isso, a despeito de tudo indicar o contrário, ou é apenas uma forma que encontrou de pensar para evitar o sofrimento.

Posso interpretar também que ela quando se vê sozinha e percebe as falhas do marido, entende que ela é superior a ele, não o contrário, como tanto pensava. Logo, ele que precisava dela, não o oposto.

A intensidade da escrita e o significado em cada linha já mostram que ler Clarice é para ser devagar mesmo, porque há um simbolismo em tudo que ela escreve.

Só agora percebo como sentia falta dessa leitura.

Obsessão

Esse já é um conto mais longo e denso.

A narradora é uma mulher infeliz na apatia de seu casamento com Jaime e sua vida que apenas seguia o que tinha que seguir, sem questionamentos.

Ocorre o momento de ruptura quando ela conhece Daniel, que é justamente o oposto daquilo que ela conhecia, pois é um homem que questiona tudo, enxerga na vida um grande sofrimento e ultrapassa a vida básica em busca de algo que transcende.

Isso faz com que ela se apaixone por Daniel e também sucumba, porque ele vê nela essa insignificância, a chamando de burra e inocente o tempo todo.

A despeito de ser agredida, ela se apaixona cada vez mais por esse homem que a faz questionar a sua vida anterior infeliz, ainda que na nova não encontre essa felicidade. Parece que ela quer sentir, algo que não fazia isso, ainda que fossem sensações de dor.

Nesse momento, Daniel encarna um tipo de professor e diz que irá educa-la sobre esses conhecimentos de consciência sobre a existência. Ela larga o marido e Daniel diz seu nome, Cristina.

Fico com a sensação que somente sabemos o nome dela nesse momento porque antes ela era anônima, não existia, era apenas um corpo seguindo a vida.

O final do conto mostra que conforme ela descobre a existência, descobre também que Daniel não é um Deus, possui fraquezas como qualquer um.

Assim, Cristina entende que conhecimento é solidão, voltando para seu marido.

Esse conto é complexo e ler Clarice sempre dá a impressão de que algo não foi percebido ou entendido. Mas algo tão profundo só pode atingir cada leitor de uma forma, não há outro jeito.

Apesar de se alongar muito, vejo nesse conto alguns recursos que já conhecia na escrita dela: a busca do protagonista por um sentido na existência, a saída do marasmo ao se chocar com a consciência, a revelação tardia do nome da protagonista quando ela sai da apatia e o final aberto.

Excelente conto.

O delírio

Esse já é um conto mais difícil. Somente relendo para compreender algo. Ou achar que compreendeu. É bem curtinho.

A pouca narrativa mostra um homem doente, em meio a delírios causados pela enfermidade. Ele é escritor.

Por meio de diversos simbolismos, como a luz que entra pela janela, a terra murcha e a renovação das espécies, percebe-se que cada vez mais o escritor está ligado a uma existência metafísica, perdendo o contato com a realidade.

Isso se mostra ao não compreender algumas situações à sua volta, fazendo com que sua enfermeira entenda que o fim dele está próximo.

O mais interessante é que ele somente sente paz com seu delírio quando pega papel e lápis e o coloca em letras. É temática da Clarice essa união entre o escritor e o sentido que ele mesmo se dá somente ao escrever.

Quantos simbolismos posso ter perdido? Muitos, mas somente relendo várias vezes para compreender ou viajar cada vez mais. Será que para compreender esse conto o próprio delírio deve ser nosso?

Essa leitura de contos abre demais a cabeça.

Eu e Jimmy

Conto de pouquíssimas páginas, mas bem interessante. Um dos melhores até agora.

Vejo um lado irônico na autora, que traz uma escrita com clara postura feminista.

A protagonista é uma estudante de direito e começa a se relacionar com Jimmy. Mas ela segue o que sua mãe fez, tendo pensamentos próprios, mas os suprimindo para seguir uma doutrinação masculina.

Jimmy ensina-lhe sobre seu pensamento natural, ou seja, se duas pessoas se gostarem, devem se amar, tal qual animais, e qualquer outra coisa é bobagem.

Assim a protagonista segue, até conhecer seu examinador no curso, a quem chama de D., que lhe ensina novas teorias e pensamentos novos. Isso faz com que ela deixe de admirar Jimmy, que era muito mais raso.

Aí vem a ironia, para terminar com Jimmy ela aplica a ele a própria teoria. Mas ele não gosta nem um pouco e a ofende, fazendo com que ela fique confusa.

Nessa hora vem o ponto alto: ela consulta sua avó sobre o conflito, obtendo a sábia resposta de que homens criam teorias para eles, mas para as mulheres são diferentes.

Assim, a estudante compreende que se é assim, de fato somos animais. Porém Jimmy apesar de falar, não compreende isso.

É interessante a passagem curta que mostra o descobrir de uma mulher sobre questões que a inferiorizam em um tempo que ela está começando a ter acesso ao conhecimento.

História Interrompida

O conto mostra mais uma protagonista sem nome. Esta tem um relacionamento com W e se sente inquieta em tentar compreendê-lo. Ele é uma pessoa triste, que a deixa confusa. O problema é que quanto mais tenta fazê-lo superar esse estado, pior se sente, pois ele acha que ela não tem capacidade de entender.

Deste modo, ela conclui que ou ela o destrói, ou ele a destrói. Em uma espécie de vingança, ela decide que irá pedi-lo em casamento, talvez como forma de “ganhar” a briga, fazendo com que ele fique feliz.

Para isso, planeja como pedir, como se vestir, para que tudo seja perfeito. Se perde em expectativas. Até se sente culpada pela felicidade.

Em sua visão até infantil, ela ignora os verdadeiros motivos da tristeza dele. Ela o quer contente para que ela fique contente também.

Todavia, vem a ruptura: no dia em que pediria W em casamento descobre que ele se matou.

Após uma passagem ela se questiona, porque no futuro se casou e teve filhos, mas continua sem compreender o sentido de W e de seu sofrimento por ele. As explicações de Deus não a satisfazem.

Interessante compreender a passagem de Ló que ela cita: aquela que olha para trás e se transforma em sal. Ela tenta não fazer isso, mas não consegue, porque não entende o sentido do suicídio.

É um conto mais complexo e confuso, porque confesso não entender como a autora se vingaria casando. Mas ainda assim mostra a relação de expectativa e frustração como forma de evolução para o ser humano.

A Fuga

Esse conto tem umas 05 páginas, mas é um tapa na cara.

Temos uma protagonista mulher novamente, sem nome novamente e nesse caso certamente ela não tem nome porque representa todas as mulheres.

Ela é casada há 12 anos e tem uma grande descoberta, uma revelação, um rompante de coragem. Resolve fugir de casa. Nos primeiros parágrafos ela saboreia as primeiras horas de liberdade, na chuva.

Após isso, aparece uma alegoria, da pessoa que não é atingida pela gravidade, vive caindo, mas nunca chega a lugar algum. Ela se sente afundando no mar, sem nunca chegar ao fundo.

Ela de repente sente de novo a mesma sensação de sufocamento que sentia no casamento. Começa a pensar que talvez o dinheiro que tinha não desse para o navio, que tomou chuva e estava com frio. Parecem desculpas para desistir da fuga, ou a sensação de que uma mulher casada naquela época não tinha a opção de seguir sua própria vida.

Ao final, volta para casa e o marido nem nota que ela demorou, já lhe trazendo compromissos caseiros. Ele dorme e ela chora no seu canto.

Percebemos que o título da fuga não é do marido, mas dela mesma, porque é anulada, não tem como ter a liberdade que sonha nesse mundo.

Clarice reflete muito sobre o papel da mulher, sobretudo na instituição família. Ela é apenas um papel social, não tem individualidade.

Talvez um dos meus contos preferidos até agora.

Trecho

Clarice apresenta Flora, uma mulher que espera seu namorado/amante/rolo, Cristiano, em um restaurante.

Ela se sente insegura por estar sozinha e acha que todos a julgam por isso, ou, pior, não a notam, como se não existisse.

Ela o espera ansiosamente, mesmo com o atraso, porque ele lhe prometeu que seria um grande dia.

O conto vai mostrando uma linha de pensamentos de Flora, que tem uma filha, a quem chama de Nenê. Flora também parece ser jovem e vive sendo avisada que seu maior medo pode ser realidade: será abandonada com uma filha.

Em um momento, quando já crê que Cristiano não virá, Flora se olha no espelho e não se reconhece. Sente que sem ele, ela não existe. Mais uma vez Clarice mostra como as mulheres da época se sentiam incompletas sem um homem ao lado.

De repente, Cristiano chega. Ela sente raiva por ele demorar tanto, a fazer não existir naquela restaurante por tanto tempo. Ele dá uma desculpa esfarrapada e começa a lhe tratar com paternalismo.

Ela esquece. Fica feliz, porque agora existe.

Cartas a Hermengardo

Este conto me pareceu ser o mais difícil de compreender o sentido, por conta da linguagem da autora e das metáforas e referências que para mim nem sempre ficaram tão claras.

São 05 cartas escritas por Idalina a José, a quem prefere chamar de Hermengardo. Ela não pretende enviá-las e não o conhece pessoalmente. Ela apenas o vê da sacada de seu prédio fumando na sacada dele.

A impressão é a de que como ela sabe que a carta não será lida por ele, ela pode expressar todas as angústias e reflexões que o convívio social a impedem de fazer.

Na primeira carta, Idalina sente-se culpada, por ter tudo e não ser feliz, estar insatisfeita. Diz parece pouco der pão e cama. Obviamente se nota que lhe falta companhia.

Idalina tem emprego, cita chegar em casa de uma repartição e também um professor de direito público. Mas é sozinha e até cita o termo “spleen”, muito utilizado na literatura, que nada mais é o sofrimento pelo vazio existencial.

Nas cartas seguintes, Idalina mostra suas reflexões antes ocultas. Como uma espécie de resignação, afirma que amar é sofrer. Lamenta essa constatação, mas faz um estranho paralelo entre pensar em ouvir uma música e efetivamente ouvi-la. Segundo ela, assim que ouve a música, ela se acaba e o significado que tinha em seu pensamento também se vai.

Por isso, Idalina diz que só ama quem não coloca o amor em prática, porque é como coloca-lo para fora de si e a experiência destrói o amor.

Ela ainda faz reflexões sobre paixão e deixa Hermengardo com um conselho sobre amar, mesmo sabendo que ele não lerá suas cartas.

Conto muito difícil e tenho certeza que precisarei reler no futuro para quem sabe retirar algo mais dele.

Gertrudes Pede Um Conselho

Clarice mostra nesse conto sua grande habilidade com a escrita, sobretudo nas questões dos pensamentos e sentimentos de seus personagens. Esse conto, como tantos outros, é quase inteiro escrito em discurso indireto livre, com poucos diálogos explícitos.

Essa característica deixa um ar soberano ao narrador na interpretação do personagem, mas com uma linguagem dessas sensações.

Gertrudes, Tuda, é uma jovem de 17 anos, muito inquieta, que escreve diversas cartas para a “doutora”. Não fica claro qual a atuação dela, ficando no ar a suspeita de que seja uma advogada.

Talvez pela insistência das cartas com um pedido de emprego, a doutora chama Tuda para uma entrevista.

No caminho, Tuda reflete sobre sua perturbação, as ideias de suicídio e, seguindo o tema do conto anterior, a sensação de culpa que sentia por sentir-se incompleta, já que tinha tudo. Em um momento diz que não suporta a felicidade que tem, mesmo sem saber que felicidade é essa.

Claro que Tuda cria expectativas de como seria essa mulher que idealizava e teria como mentora, direcionando lhe pelo caminho que precisava seguir e não sabia como era.

O problema é que quando chega à entrevista, Tuda se decepciona, pois a doutora não é como imaginava e demonstra vários sinais de que também é uma humana com conflitos e incertezas.

Tuda, com isso, tem vontade de fugir, pois constata que a doutora é igual a todo mundo, incapaz de compreende-la.

Após conversarem e perceber o desinteresse da doutora, quando está indo embora, ouve da mulher para que vivesse a vida, deixasse o sentido dela aparecer naturalmente, como acontece com todos. Diz-lhe também que ela é uma garota sensível, por isso, sente tanto mais infelicidade quanto felicidade que os outros, mas não deveria antecipar, porque o sentido da vida aconteceria.

No entanto, a falta de sinceridade da mentora é percebida pela suposta pupila, que se sente agora superior à doutora, que desistiu do sentido da vida, mas ela não, era corajosa.

Tuda ainda sente uma fagulha de admiração pela doutora quando essa pede para que ela retorne com uns 20 anos para trabalhar com ela, quando for mais experiente.

A epifania de Tuda chega no caminho de casa, quando lembra da mão mole que a doutora estendeu-lhe na despedida: foi indesejada. Mas mesmo assim está mudada. Percebe que não precisa de sua mãe lhe dizendo o que fazer, nem da doutora para ser mentora. Era capaz de tomar suas decisões sozinha.

Arrebata da seguinte forma:

“Lembrou-se subitamente: a doutora... Não... Não. Nem aos vinte anos. Aos vinte anos seria uma mulher caminhando sobre a planície desconhecida... Uma mulher! O poder oculto desta palavra. Porque afinal, pensou, ela... ela existia! Acompanhou o pensamento a sensação de que tinha um corpo seu, o corpo que o homem olhara, uma alma sua, a alma que a doutora tocara. Apertou os lábios com firmeza, cheia de súbita violência:

- Eu lá preciso de doutora! Lá preciso de ninguém!

Continuou a andar, apressada, palpitante, feroz de alegria.”

Mais dois Bêbados

O conto final de Primeiras Histórias é bem diferente dos outros. Mas ainda segue como assunto o conflito interno sobre o significado da vida.

Um homem bêbado, noivo, cansado da falta de compreensão de sua noiva, Ema, perambula pela rua em busca de outro bêbado para começar a conversar.

Ele encontra outro homem, que deixou esposa e filho doente em casa para beber. Mas o outro manguaceiro não parece ter interesse nessas reflexões que o primeiro faz e que parece beber apenas para atingir esse grau de consciência.

Irritado, o primeiro homem começa a contar uma história bizarra e perturbadora a respeito da esposa e do filho do segundo, de modo a faze-lo ouvir, demonstrar emoções e e sentimentos.

Mesmo assim, parece que não há resultado, até que o outro bêbado diz que vai falar uma coisa e... o conto acaba.

É irônico, pois no meu entender foi a autora dizendo que nunca sabemos que o outro pensa quando tentamos enfiar pensamentos na cabeça dos outros.

...

Assim termina esse primeiro livro de contos da Clarice Lispector. O próximo é Laços de Família, um dos mais famosos da autora. Em breve faço comentários sobre ele.

FDL

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Chaves – A história Oficial Ilustrada

Chaves – A história Oficial IlustradaJá fazia muito tempo que tinha comprado esse livro e estava aqui esperando a hora certa de ler. Nem houve nada de especial, só um tempo livre e como são 200 páginas com letras grandes e várias figuras, rapidinho é lido.

Esse livro é da editora Universo dos Livros e é uma tradução de obra feita pela emissora de Chaves no México. É um trabalho impecável. Realmente de primeira qualidade.

As primeiras páginas são dedicadas à biografia de Roberto Gómez Bolaños, desde a infância até ser consagrado como um dos maiores comediantes e profissionais da televisão da história mexicana.

Essa parte é bem interessante, porque vemos a vida de Roberto influenciando como acabaram sendo seus personagens e o que acontecia com ele.

As páginas seguintes mostram a história dos programas de Chespirito (seu apelido) na televisão, principalmente Chaves e Chapolin, com guias de personagens, biografias e curiosidades.

O livro foi escrito antes da morte de Bolaños em 2014 e também fugiu das polêmicas pesadas que houve entre ele e o restante do elenco, passando superficialmente sobre alguma coisinha.

Gostei muito de conhecer um pouco mais sobre o criador do seriado que marcou minha infância e até hoje tem aquela sensação agradável de conforto quando assisto a algum episódio por aí.

Recomendo esse livro.

domingo, 27 de agosto de 2017

Friends From College – 1ª Temporada

friends from college s1

Vi o trailer dessa curta série que o Netflix iria estrear e resolvi apostar. A chamada me convenceu.

São 06 amigos na faixa dos 40 anos que estudaram juntos em Harvard. Quando um casal deles volta a morar na cidade, todos passam a se reunir novamente, expondo situações não resolvidas e fazendo com que eles resgatassem o passado para pensar em mudar o presente infeliz.

No elenco não há tantos nomes super famosos. Eu conhecia a Cobie Smulders, que fez a Robin de How I Met Your Mother. Ela está bem na série.

O personagem principal é o escritor Ethan Turner, interpretado pelo comediante Keegan-Michael Key, que é muito talentoso e reconhecido pelos críticos, mas não vende nada e vive fodido de dinheiro. Ele é casado com Lisa, a Cobie, mas tem um caso com a amiga deles há anos, Sam (Annie Parisse).

Ethan precisa de grana para pagar seu tratamento de engravidar com a mulher e seu melhor amigo Max (Fred Savage) o ajuda, tentando um caminho comercial ao escrever livros de young adult.

Completam o grupo a artista estilo estudante de humanas Marianne (Jae Suh Park) e o playboy comedor Nick (Nat Faxon). Esses personagens são os coadjuvantes obrigatórios em qualquer comédia, não sendo diferente nessa.

Há diversas cenas engraçadas e muitas, mas muitas passagens de comédia pelo desconforto dos personagens. Tem hora que chega a dar agonia.

O bom é que Friends From College não deixou de lado trazer alguns assuntos mais relevantes e explora muito bem essa crise dos 40 anos pela qual os personagens passam. Tanto é que os respectivos namorados/esposos se incomodam com a forma imatura de comportamento deles quando se reúnem.

Outra boa sacada que tiveram nessa série foi explorar a temática saudosista para trazer a melhor época da música na minha humilde opinião. Houve diversas músicas dos anos 90 e ainda das que caem direto no meu gosto.

O segundo episódio é encerrado com “Don’t Look Back In Anger”, do Oasis, um clássico que nem preciso mencionar.

Já no final da temporada, no episódio 07 há “A Long December”, dos excelentes Counting Crows. No derradeiro, eles fazem uma zoeira boa com “MMMBop”, do Hanson.

Nesses dias mesmo critiquei a falta de opção em comédias boas e fiquei bem satisfeito com essa série. Foi renovada e no ano que vem volta com mais episódios.

Recomendo.

FDL

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A Balada de Adam Henry – Ian McEwan

A-Balada-de-Adam-Henry“Vou lhe dizer por que estou aqui, Adam. Quero ter certeza de que você sabe o que está fzendo. Algumas pessoas acham que você é jovem demais para tomar uma decisão como essa e que foi influenciado por seus pais e pelos líderes da congregação. E outros acham que, como você é extremamente inteligente e capaz, deveríamos apenas deixar que siga em frente.”

Ian McEwan

Já estava curioso com essa leitura há algum tempo, porque recebi boas indicações. Até fiquei surpreso com o tamanho do livro quando chegou. É versão menor com 190 páginas. Termina-se rapidinho e sem muitas paradas, seja pelo ritmo da narração, seja pela qualidade da história.

A história se passa na Inglaterra e tem como protagonista a juíza Fiona Maye, de um tribunal superior que trata de direito de família. Ao longo das primeiras páginas conhecemos o teor de alguns casos com que ela trabalha e, ainda que com muita humanidade, já faz de forma mecânica. Além disso, Fiona encara uma crise no seu casamento, mesmo depois de tanto tempo.

A situação que ocorre pra incomodar o marasmo é o caso de Adam Henry, um adolescente com 17 anos e leucemia. Seu tratamento precisa urgentemente de uma transfusão de sangue para que ele tenha chances e não morra. Ocorre que Adam e sua família são testemunhas de Jeová, religião que se opõe fortemente às transfusões, preferindo a morte a recorrer a esse tipo de procedimento.

Como Adam tem 17 anos e se recusa ao tratamento, o processo pedia que a juíza verificasse se ele tinha “competência de Gillick”, caso no qual o jovem já está intelectualmente e emocionalmente apto a decidir sobre sua própria saúde.

Nesse caso que envolve um conflito entre direito à vida, liberdade religiosa e tutela dos interesses de um adolescente, a juíza acaba conhecendo Adam e se aproximando dele, que é inteligente e artisticamente sensível. Como ela passa por um momento difícil da vida, essa aproximação mexe com a magistrada. O resto é spoiler.

Esse tema da transfusão de sangue com testemunhas de Jeová para quem estudou direito já é bem batido. Para quem não é da área eu não sei se é de conhecimento generalizado. Ainda assim, gostei do paralelo que isso tem com a vida pessoal da própria juíza. Isso é assim porque em ficção no geral o a figura do juiz é a do sisudo velho atrás da bancada batendo o martelinho, sem humanidade por trás.

O livro é bem interessante e tem diversas passagens com boas reflexões e discussões a respeito de religiosidade, postura ética do magistrado, relações de casamento quando se aproxima a terceira idade, a relação do ser humano quando se vê à beira da morte, enfim, são páginas ricas em conteúdo, sem a menor dúvida.

Gostaria de ter me apegado um pouco mais a essa personagem? Sim. Fiquei sentindo que faltou algo que não sei explicar? Também. Até por isso, apesar de achar que é um bom livro, não está no topo da minha lista nesse ano.

Esse autor é muito respeitado e tem várias obras famosas e recomendadas. Tenho interesse em lê-lo novamente e mesmo que não tenha ficado tão empolgado assim, deixo minha recomendação.

FDL

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O Advogado Rebelde – John Grisham

adv rebelde

“Em geral, sou um imbecil hipócrita quando meus clientes são notoriamente culpados. Mas, se me derem um homem inocente, eu exalo arrogância e superioridade. Sei disso e luto com todas as forças para dar a impressão, ao júri pelo menos, de que de fato sou uma pessoa amigável. Na verdade, não me importo se me odiarem, desde que não odeiem meu cliente. Mas, quando represento um santo como Doug Renfro, é essencial que eu vá até o fim igualmente zeloso, mas não ofensivo. Incrédulo com a injustiça, mas também confiável. ”

John Grisham

De longe esse foi o pior livro do Grisham que eu já li. E ainda passei ele na frente de outras opções porque queria uma opção confiável, na qual eu sabia com o que contar.

É o livro mais recente dele publicado no Brasil e deixou a desejar em dois aspectos: o narrador em primeira pessoa é muito chato, com uma descrição desinteressante sobre sim mesmo; além disso, a história é extremamente inverossímil, ainda que divertida e instigante.

O começo de O Advogado Rebelde é bem chato, tanto que liguei a luz laranja para abandoná-lo depois da página 50 se alguma mudança não acontecesse. É raro eu fazer isso.

Mas, de fato a leitura embala, porque a história tem um protagonista, o advogado Sebastian Rudd, que tem seu estilo peculiar de trabalhar e há uma divisão por capítulos, com casos em que ele trabalha bem demarcados, como se fossem contos.

Aliás, fica bem clara a linguagem televisiva do Grisham nesse livro. Fica evidente o interesse em transformar esse livro em uma série. Pode até dar certo, porque o protagonista até é carismático. Um narrador diferente teria deixado tudo mais interessante.

Uma passagem inicial nessa história particularmente me irritou e eu até marquei para não esquecer de como foi sem inspiração:

“...No interrogatório, eu a ataco com uma sede de vingança que parece espantar até Kauffman e Huver. Ela deixa a sala aos prantos. Em seguida, trazem sua imprudente filha, srta. Marlo Wilfang, que repete sua pequena narrativa sob a desajeitada indagação de Dan Huver, que agora já está completamente desarvorado. Quando ela é passada para mim, eu a conduzo docemente pelo caminho da paz, depois corto sua garganta de orelha a orelha em menos de dez minutos, ela está chorando, arquejando e desejando mil vezes nunca ter me chamado na arena...”

Esse é um dos exemplos da falta de inspiração. Cortou a garganta como? Deixou as mulheres aos prantos como? É um parágrafo inteiro dizendo: sou foda, não importa como, foi assim e acabou.

As histórias mais ao final do livro com o advogado ficam melhores, mas são excessivamente fantasiosas. Chega a irritar em alguns pontos. É melhor ligar a chavinha de leitor ingênuo para terminar esse livro.

Me parece que Grisham construiu um personagem bom, mas não teve paciência de criar boas histórias para ele e de narrar tudo de forma interessante e original.

De longe isso não me afasta do autor. Foi apenas um momento de baixa inspiração. Acontece com todos.

Só vi boatos pela internet que a ideia é de que haja continuações e espero que nelas o autor capriche mais.

adv rebelde2

Ainda assim, como ponto positivo vale uma crítica em especial, em meio a tantas, que Rudd faz ao sistema criminal americano, ao modelo de guerra às drogas, que também ocorre no Brasil:

“Jovens e negros, quase todos eles. Segundo os números, estão presos por crimes não violentos relacionados a drogas. A pena média é de sete anos. Depois da soltura, sessenta por cento estarão de volta aqui em três anos.

E por que não? O que há do lado de fora para evitar sua volta? Eles agora são criminosos condenados, uma marca da qual jamais conseguirão se livrar. Desde o começo, as probabilidades estavam contra eles e, agora que estão rotulados como criminosos, a vida no mundo livre deve de alguma forma melhorar? Eles são as verdadeiras baias de nossas guerras. A guerra contra as drogas. A guerra contra o crime. Vítimas involuntárias de leis duras passadas por políticos duros nos últimos quarenta anos. Um milhão de jovens negros agora armazenados em prisões decadentes, passando os dias no ócio à custa do contribuinte.

Nossas prisões estão lotadas. Nossas ruas estão cheias de drogas. Quem está vencendo a guerra?

Nós perdemos o juízo”.

FDL

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

One Night Only – The Struts

One Night Only

I'll give you one night only
For your eyes only

Like an eagle in the sky
You can't control it
There's a magic in my eyes
And I can't stop it burning down
On the edge of tonight
Cause tomorrow we'll be owning the world
All my scars have got a tune
There's a fire in my heart
And I can't stop it burning down
On the edge of tonight
Cause tomorrow we'll be ruling the world
And you know like pure, white gold

I'll give you one night only
For your eyes only
If entertaining's what you want
Then honey, I'm the best!
I know that we're together
For all your pleasure
Forever
This is how we burn

Yeah! I wanna ride into the night
Supersonic
Like a dragon in the sky
Riding on it
Screaming loud
At the edge of tonight
Cause tomorrow we'll be ruling the world!
On the run, I'm in the mood
There's a bullet and a gun
And I'm gonna shoot it above the clouds
I'll get it tonight
Cause tomorrow we'll be ruling the world
You know like pure, white gold

I'll give you one night only
For your eyes only
If entertaining's what you want
Then honey, I'm the best!
I know that we're together
For all your pleasure
Forever
This is how we burn
This is how we burn
This is how we burn

I just wanna ride
I just wanna turn and face the strange
Sometimes the fear in us
Turns to the best of us
I just wanna have some fun
I just wanna throw that one, two punch
Sometimes the tear in us
Turns to the best of us

I'll give you one night only
For your eyes only
If entertaining's what you want
Then honey, I'm the best!

I'll give you one night only
For your eyes only
If entertaining's what you want
Then honey, I'm the best!
I know that we're together
For all your pleasure
Forever
This is how we burn
This is how we burn
This is how we burn

Apenas uma noite

Eu só vou dar uma noite
Apenas para os seus olhos

Como uma águia no céu
Você não pode controlá-lo
Há uma magia nos meus olhos
E não posso parar de queimar
À beira da noite
Porque amanhã seremos donos do mundo
Todas as minhas cicatrizes têm uma melodia
Há um fogo no meu coração
E não posso parar de queimar
À beira da noite
Porque amanhã vamos governar o mundo
E você sabe como ouro puro e branco

Eu só vou dar uma noite
Apenas para os seus olhos
Se o entretenimento é o que você quer
Então, querida, eu sou o melhor!
Eu sei que estamos juntos
Para todo o seu prazer
Para sempre
É assim que queimamos

sim! Eu quero andar na noite
Supersônico
Como um dragão no céu
Riding on it
Gritando alto
À beira da noite
Porque amanhã vamos governar o mundo!
Na corrida, estou com vontade
Há uma bala e uma arma
E vou dispará-lo acima das nuvens
Eu vou pegar esta noite
Porque amanhã vamos governar o mundo
Você sabe como ouro puro e branco

Eu só vou dar uma noite
Apenas para os seus olhos
Se o entretenimento é o que você quer
Então, querida, eu sou o melhor!
Eu sei que estamos juntos
Para todo o seu prazer
Para sempre
É assim que queimamos
É assim que queimamos
É assim que queimamos

Eu só quero andar
Eu só quero me virar e encarar o estranho
Às vezes, o medo em nós
Nos torna melhores
Eu só quero me divertir
Eu só quero jogar aquele, dois socos
Às vezes, a lágrima em nós
Nos torna melhores

Eu só vou dar uma noite
Apenas para os seus olhos
Se o entretenimento é o que você quer
Então, querida, eu sou o melhor!

Eu só vou dar uma noite
Apenas para os seus olhos
Se o entretenimento é o que você quer
Então, querida, eu sou o melhor!
Eu sei que estamos juntos
Para todo o seu prazer
Para sempre
É assim que queimamos
É assim que queimamos
É assim que queimamos